sábado, 2 de abril de 2016

Resenha sobre o documentário “Nas Terras do Bem Virá”

O documentário “Nas Terras do Bem Virá” faz um reflexo claro da realidade dos menos favorecidos no Brasil. O descaso do governo e a exploração perpetuada pelos grandes latifundiários é retratada no documentário e nos auxilia a compreender nosso desenvolvimento atual
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Logo após as Guerras Mundiais, houve uma mobilização muito grande para que a igualdade fosse alcançada por todos, bem como a observância dos direitos e deveres de todos e por todos, seja nação, instituições e indivíduos e o estabelecimento de princípios morais, éticos e legais para que, através destes, os Direitos Humanos fossem buscados, alcançados e zelados por todos.
No entanto, diante desses preceitos, depara-se novamente com a questão inicial, ou seja, quem elabora as leis é a própria classe que subjuga, domina e oprime. Esta classe não tem interesse que a igualdade seja alcançada por todos de forma indiscriminada. Assim, chega-se ao século XXI, com inúmeras ocorrências de desrespeito aos Direitos Humanos.
No Brasil, apesar da Constituição de 1988, observa-se que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que se chegue próximo aos ideais defendidos por alguns pensadores, como por exemplo, Rousseau, Montesquieu, Diderot e Voltaire que eram a favor de um governo democrático, com ampla participação popular, fim de privilégios de classe e ideais de liberdade e igualdade como direitos fundamentais do homem. Pois, existem no país vários problemas relacionados com as questões indígenas, a reforma agrária, posse e uso da terra, concentração da renda nacional, desigualdades e exclusão social, desemprego, miséria, analfabetismo, saneamento básico, infra-estrutura habitacional etc.
O documentário “Nas Terras do Bem Virá” é um reflexo claro de uma das formas existentes no país de humilhação, exploração, subumanidade, pelas quais passam os menos favorecidos e do descaso do governo e dos grandes latifundiários com a preservação do meio ambiente. Isso se pode observar tanto na forma como os “poderosos” tratam os seus funcionários, subjugando-os às condições deploráveis de trabalho e de vida quanto na proteção dispensada ao que eles acham que é o seu patrimônio, tendo este como bem mais importante, até mesmo em comparação com a vida humana.
Este filme, dirigido por Alexandre Rampazzo, tendo como produtora Tatiana Polastri, foi produzido com imagens de emissoras de televisão locais e com a colheita de depoimentos de migrantes, familiares destes, representantes religiosos, agentes do governo, fazendeiros e outras pessoas. Para isso, foram percorridas 29 cidades das regiões Norte e Nordeste. Este longa foi ganhador de vários prêmios nacionais e internacionais, como It’s All True – Festival Internacional de Documentários, menção honrosa, Mostra Etnográfica da Amazônia, ambos no Brasil; Festival dos Três Continentes, na Venezuela, prêmio de melhor filme; e Mostra Contra o Silêncio de Todas as Vozes, no México, obtendo menção Honrosa também.
No documentário, é exposto conflitos por terras na Amazônia e como os grandes latifundiários se aproveitam do descaso do Estado em fiscalizar a ocorrência do trabalho escravo e outras formas degradantes de exploração humana, bem como da impunidade e do auxílio estatal, direta ou indiretamente, em acobertar e defender com o seu aparato, utilizando-se até mesmo da polícia, os interesses dos mais favorecidos, não importando se estes estão agindo legalmente ou não. Quando acontece a punição, esta é tão inexpressiva que é preferível correr o risco de ser alcançado pelas normas, pois, o trabalho escravo e a exploração já deram mais lucros que o prejuízo proporcionado pela pena.
O Brasil viveu na década de 70, no período ditatorial, tendo como presidente o General Emílio Garrastazu Médici, uma grande efervescência econômica, pelo menos teoricamente. Dentre outros aspectos, houve um grande investimento no Norte com a interminável construção da Rodovia Transamazônica e grande incentivo para os nordestinos saírem da sua região para aquele destino. Contudo, não houve uma preocupação estatal em organizar essa saída nem a recepção, orientação e suporte às pessoas menos esclarecidas e favorecidas que chegavam à desconhecida região. Por outro lado, o governo incentivou e patrocinou a vinda de grandes agropecuários, vários empresários, grandes latifundiários, comerciantes provenientes de várias partes do Brasil para proporcionar o desenvolvimento daquela região.
É evidente que esse desenvolvimento era predatório, já que ninguém se preocupava até a época (e até hoje muitos não estão dando importância nenhuma quando se fala em ganhar dinheiro, ser bem sucedido, progresso) com a sustentabilidade. O governo, através da SUDAM – Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia, patrocinou a devastação da Amazônia, o trabalho escravo e o enriquecimento dos poderosos com o seu projeto de desenvolvimento sem o compromisso com os menos favorecidos e com o meio ambiente.
Este “progresso” gerou mais desigualdade social ainda, pois, aqueles que já eram ricos obtiveram auxílios para a posse e exploração das novas terras, já os pobres ganharam o descaso estatal mais uma vez. Estas pessoas, na maior parte homens, eram expulsas de sua região por causa da seca e da cerca, como relatado no filme pelo bispo Dom Pedro Casaldáliga que lhes causavam segregação e sofrimentos, pela necessidade e pelo sonho de poder dar às suas famílias uma vida digna e passam por uma decepção maior ainda, a de chegar em lugar cheios de sonhos e de esperanças, alimentadas muitas vezes pelo governo, o que supostamente dá uma garantia maior, e serem obrigados ao trabalho escravo e terem os seus direitos de ir e vir, de serem tratados como seres humanos etc. cerceados, como bem ressalta o advogado Masson na sua comparação entre trabalho escravo e o sequestro. Onde ele diz que a diferença se encontra em que no trabalho escravo os filhos da elite sequestram os filhos da favela e estes sequestram aqueles na modalidade sequestro, propriamente dita. Por isso, esta modalidade é mais punida que a outra.
Tudo isso, causou muita instabilidade naquele lugar, gerando uma verdadeira guerra pela posse da terra. Cada um lutava da forma que podia para garantir o seu pedaço. Desta forma, novamente prevaleceu aquele que detêm o poder, subjugando os menos favorecidos, ou na pior das hipóteses, causando inúmeras mortes.
É válido ressaltar a tamanha insanidade e irracionalidade por parte do governo, o qual vê como solução mais plausível o fato de preferir tirar pessoas da sua região de origem para outra desconhecida a investir no Nordeste, talvez até menos, para proporcionar uma vida melhor àqueles indivíduos.
O governo repete o modelo de exclusão, no qual ele destina uns para escravos e prostitutas, revoltados e bandidos e outros para “heróis”, conforme a sua conveniência. Por isso é importante que haja esclarecimento ao povo e que este lute. Dentro deste contexto surge o MST com o seu projeto de ocupação pública, contra a falta de responsabilidade e de compromisso por parte dos políticos com relação à reforma agrária e à causa dos povos indígenas. Isso também é evidenciado no filme, bem como a forma como o Estado reage diante dessas manifestações, buscando o controle social, sempre em prol dos grandes proprietários de terra em detrimento daqueles que realmente precisam do apoio do governo, os pobres, utilizando-se para isso, conforme as exigências do grande capital, da sua máquina repressora, a polícia.
A polícia, por sua vez, ou a maioria das instituições públicas, subsiste de forma precária. O governo não a estrutura para que ela tenha condições reais de existência e atuação, apenas exige o cumprimento das determinações. Assim, essa instituição fica a mercê de suportes de fazendeiros, comerciantes, banqueiros, industriários, por exemplo, a Companhia Vale do Rio Doce, ou seja, fica tendenciosa aos interesses do grande capital. Desta forma, quando é preciso agir, ela decide parcialmente, tomando o problema social (diga-se: o problema dos grandes proprietários) como se seu fosse. Por isso, além de ser a máquina repressora do Estado, beneficia com suas ações aos detentores do poder em detrimento dos menos favorecidos. O episódio trágico do dia 17 de abril de 1996, em Eldorado dos Carajás deixa claro isso. Ali, segundo informações oficiais, 19 pessoas foram mortas numa operação desastrosa da corporação estatal de policiamento militar. Número este que para os acampados foi bem maior.
Assim, é notório que no modelo estatal de desenvolvimento não há lugar para os pobres. As grandes empresas e os grandes fazendeiros conseguem o documento da terra com negociatas com os cartórios e com o Estado. Há o “corporativismo” entre os fazendeiros, mesmo aquele que, porventura, anda dentro da lei não denuncia o que comete atos ilegais. Até porque a própria imprensa, a polícia e o Estado trabalham a serviço do poder, de forma tendenciosa, aberta ou dissimuladamente, em prol do grande capital. A certeza da impunidade é a licença para o cometimento de qualquer crime, até mesmo para matar. Nesta convicção, os grandes latifundiários passam por cima de tudo e de todos que aparecem pela frente. Como exemplo disso, pode-se citar o caso da freira estadunidense Dorothy Stang, morta em 12 de fevereiro de 2005, pelos pistoleiros Rayfran e Clodoaldo, a mando dos fazendeiros e comerciantes Vitalmiro o “Bida” e Regivaldo o “Taradão” por intermédio de “Tato”. Fato este exposto no filme.
Este é o valor, a recompensa e o cuidado disponibilizado pelo Estado para aqueles que defendem os pobres, o pequeno produtor e vão contra o sistema, o Estado e os grandes latifundiários. Essas pessoas pagam um preço alto, pagam com a vida.
Com isso, observa-se que continua, se não for maior hoje, a necessidade gritante e urgente de luta constante, mas, não por parte de um ou poucos, e sim de todos aqueles que sofrem por subjugações, pois, conforme é relatado no documentário: “de 1985 a 2005 foram cometidos 1426 homicídios ligados a conflitos agrários no Brasil. Apenas 76 casos foram levados a julgamento, 16 mandantes foram condenados. Nenhum deles está preso. Mais de 90% desses casos nunca chegaram à justiça.”
“Atualmente, só no Estado do Pará, cerca de 100 lideranças estão ameaçadas de morte. Entre elas 10 dos entrevistados.”
“Em 11 anos de criação do Grupo Móvel de Fiscalização, foram registrados cerca de 21 mil trabalhadores em regime análogo à escravidão. Estima-se que 25 mil trabalhadores são escravizados anualmente na Amazônia.”
É interessante observar ainda neste contexto, o argumento mesquinho dos grandes latifundiários, colocando em controvérsia o próprio sentido de propriedade, alegando que as terras devolutas não têm dono e que eles estão fazendo um favor em cuidá-las, bem como em dar uma oportunidade de trabalho àqueles povos que viviam nas favelas, bebendo água da lama, sem ter o que comer, nas secas do Nordeste etc.. Eles se aproveitam inclusive da inércia do Estado e de argumentos estatais, dos pequenos proprietários de terra e dos trabalhadores para legitimar suas ações. Por exemplo, há trechos no filme onde alguns entrevistados dizem que Deus não deixou nenhum dono de terra, esta não tem dono, a própria ministra Marina, em sua fala, ressalta essa situação. Isso, somado ao descaso estatal, leva a uma interpretação muito perigosa e que corrobora com o argumento dos opressores, pois, se a terra não tem dono, passa a ter a posse aquele que sabe protegê-la melhor, utilizando-se para isso os mais diversos meios. Assim, o trabalhador e o pequeno agricultor sempre saem em desvantagem. Deste modo, o Brasil chega ao século XXI sem conseguir se livrar desse carma.
Por isso, é importante, por um lado, a intervenção, a organização e a administração estatal e que este assuma sua responsabilidade e tenha compromisso com os menos favorecidos também, por outro, que estes perseverem nas lutas para que o Brasil não se perpetue como terra de ninguém, ou pior, daqueles que sabem matar mais, e para que alcance o tão almejado, pregado e defendido (em muitos casos apenas teoricamente) Direitos Humanos. Só assim será possível pensar em um Brasil mais solidário e igualitário e daí, buscar dar fim ou, pelo menos, minimizar todas as questões sociais expostas no documentário, já supracitadas, e outras que não foram citadas neste trabalho.
REFERÊNCIAS
CAMARGO, BEATRIZ. DOCUMENTÁRIO ABORDA TRABALHO ESCRAVO E CONFLITOS DE TERRA NO PARÁ. DISPONÍVEL EM <HTTP://REPORTERBRASIL.ORG.BR/2007/03/DOCUMENTARIO-ABORDA-TRABALHO-ESCRAVO-E-CONFLITOS-DE-TERRA-NO-PARA/> ACESSO EM 15 DE JUL DE 2013.
Ciclo de Debates sobre Conflitos Agrários apresenta: Nas Terras do Bem-Virá Disponível em <http://www.ufrgs.br/pgdr/temas/eventos/ciclo_debates_nasTerrasDoBemVira.pdf> Acesso em 15 de jul de 2013.
Nas Terras do Bem Virá. Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=VibNE-8dN7o> Acesso em 15 de jul de 2013.

II SEMINÁRIO INTERNO MESTRADO EM EDUCAÇÃO DO CAMPO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA (UFRB




Aconteceu no período de 30 de março a 01 de abril, no Centro de Formação de Professores (CFP), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), campus de Amargosa, o II Seminário Interno, do Programa de Mestrado em Educação do Campo, coordenado pelo Professor Dr. Fábio Josué e pela Professora Débora Feitosa. 


O II Seminário Interno teve como objetivo a realização de mesas redondas, debates sobre as produções escritas pelos mestrandos das turmas III e IV, além de momentos de avaliação do próprio mestrado. Durante a programação ocorreram ainda as defesas dos (as) mestrados (as) Jaqueline Brito, Daiane Santos, Ladjane Baleeiro, Marcos Paiva, Ângelo Oliveira, Maria do Rosário Souza e Alessandra Silva, sendo estes os mais novos mestres em Educação do Campo do país.


Na noite de 30 de março ocorreu a mesa redonda “O papel dos Movimentos Sociais na construção da Educação do Campo” com a presença das professoras Ludmila Oliveira Cavalcante (UEFS) e Sônia Maria Alves de Oliveira Reis (UNEB), e na manhã do dia 31/03, a mesa “A produção científica no contexto dos Mestrados Profissionais em Educação: dilemas, desafios e perspectivas”, contando com as professoras Tânia Maria Hetkowski (UNEB) e Jane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios (UNEB).
O seminário contou ainda com a presença dos estudantes da UFRB, de diversos movimentos sociais, da Vice-Reitora da UFRB, Georgiana Gonçalves dos Santos, além dos professores do programa, como Fábio Josué, Débora Feitosa, Ana Cristina Givigi, Dyane Reis, Luís Flávio Godinho, Fátima Moraes Garcia, entre outros. 


O Fórum Territorial de Educação do Campo do Recôncavo e do Vale do Jiquiriçá esteve presente através dos (as) membros Antoniel Santos, Cristina Souza, Pedro Melo, Marcos Paiva, além de outros colaboradores do movimento.









PROGRAMA DE MESTRADO EM EDUCAÇÃO DO CAMPO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA (UFRB) REALIZA SEU II SEMINÁRIO INTERNO.





Aconteceu no período de 30 de março a 01 de abril, no Centro de Formação de Professores (CFP), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), campus de Amargosa, o II Seminário Interno, do Programa de Mestrado em Educação do Campo. 

O II Seminário Interno teve como objetivo a realização de mesas redondas, debates sobre as produções escritas pelos mestrandos das turmas III e IV, além de momentos de avaliação do próprio mestrado. Durante a programação ocorreram ainda as defesas dos (as) mestrados (as) Jaqueline Brito, Daiane Santos, Ladjane Baleeiro, Marcos Paiva, Ângelo Oliveira, Maria do Rosário Souza e Alessandra Silva, sendo estes os mais novos mestres em Educação do Campo do país.

Na noite de 30 de março ocorreu a mesa redonda “O papel dos Movimentos Sociais na construção da Educação do Campo” com a presença das professoras Ludmila Oliveira Cavalcante (UEFS) e Sônia Maria Alves de Oliveira Reis (UNEB), e na manhã do dia 31/03, a mesa “A produção científica no contexto dos Mestrados Profissionais em Educação: dilemas, desafios e perspectivas”, contando com as professoras Tânia Maria Hetkowski (UNEB) e Jane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios (UNEB).
O seminário contou ainda com a presença dos estudantes da UFRB, de diversos movimentos sociais, da Vice-Reitora da UFRB, Georgiana Gonçalves dos Santos, além dos professores do programa, como Fábio Josué, Débora Feitosa, Ana Cristina Givigi, Dyane Reis, Luís Flávio Godinho, Fátima Moraes Garcia, entre outros. 

O Fórum Territorial de Educação do Campo do Recôncavo e do Vale do Jiquiriçá esteve presente através dos (as) membros Antoniel Santos, Cristina Souza, Pedro Melo, Marcos Paiva, além de outros colaboradores do movimento.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Biblioteca Digital da Questão Agrária Brasileira

(MST) Caderno da Educação Nº 08 – Princípios da Educação no MST

Tipo de documento: 
 caderno de estudo
Ano: 
 1996
Idioma: 
 portuguës
AnexoTamanho
Arquivo em PDF2.32 MB

Comissão Pastoral da Terra: Secretaria Nacional

Martírio de Frei Tito contribuiu para conversão da Igreja, afirma frade dominicano

 
 
O martírio de Tito, para Frei Xavier (CPT), para além da importância de divulgar ao mundo os horrores cometidos pelo governo ditatorial brasileiro, forçou uma mudança de postura dentro da Igreja. Confira a entrevista na íntegra:

(Adital)
Neste ano de 2016, a Ordem dos Pregadores (dominicana) completa 800 anos de serviço no mundo, tendo como tema do seu ano jubilar "Enviados a pregar o Evangelho”. No Brasil, entre os dominicanos mais ilustres, podem ser citados o escritor e articulista da Adital, Frei Betto, e Frei Tito de Alencar Lima, ambos religiosos que foram presos e torturados lutando contra os abusos da ditadura civil-militar no pós [1964-1985]. Tito morreu anos depois, em exílio na França, atormentado pelas feridas que as torturas lhe imprimiram na alma.
Frei Xavier Plassat, que se tornou amigo intimo de Frei Tito, quando este se encontrava no exílio, é um dominicano francês, reconhecido por sua luta pela justiça social no Brasil. País que, apesar de ter vencido o período obscuro e violento da ditadura, ainda não conseguiu livrar-se totalmente das estruturas de dominação e exclusão social. Residente no Brasil desde 1989, Frei Xavier trabalha a serviço da Comissão Pastoral da Terra (CPT), na qual destaca-se na luta contra o trabalho escravo. O dominicano foi agraciado com a Medalha Chico Mendes de Resistência, em 2006, e com o Prêmio Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República, em 2008.
O martírio de Tito, para Frei Xavier, para além da importância de divulgar ao mundo os horrores cometidos pelo governo ditatorial brasileiro, forçou uma mudança de postura dentro da Igreja. "A bomba [a revelação, no exterior, das torturas sofridas por Tito] teria efeitos decisivos e duradouros na determinação da Igreja, inclusive a institucional, de operar a dramática conversão, passando do apoio prestado aos golpistas de 1964 ao testemunho de uma igreja martirial (...). A Igreja que encontrei, ao trazer de volta [para o Brasil] o corpo de Frei Tito, no início de 1983, já era outra (...), e uma Ordem Dominicana, em parte exangue de tanta perseguição, mas firme no seu propósito de testemunho evangélico na linha da opção preferencial pelos pobres”.
Nesta entrevista exclusiva concedida à Adital, Frei Xavier Plassat reflete sobre o papel dos dominicanos no Brasil e no mundo, sobre as inspirações e provocações ("O profetismo é resposta a um chamado, à determinada ‘pro-vocação’, que tira do comodismo”), direitos humanos, secularismo, e sobre o papel fundamental da mulher na Ordem. Confira a seguir.
Adital: Qual é a importância de Frei Tito para a experiência dominicana no Brasil e na América Latina?
Frei Xavier: Quando, em 1970, a revista estadunidense Look e a revista italiana L´Europeo publicaram o relato – em primeira pessoa – das torturas sofridas, em São Paulo, por Frei Tito, na prisão da Operação Bandeirantes, na chamada "sucursal do inferno", o efeito foi bombástico: estava ali a revelação, em âmbito internacional, de uma verdade até então mantida debaixo dos tapetes: a tortura foi aplicada aos presos da ditadura, de forma brutal, contra todo e qualquer suspeito, seja qual fosse sua cor, convicção, qualidade. A bomba iria ter efeitos decisivos e duradouros na determinação da Igreja, inclusive a institucional, de operar uma dramática conversão, passando do apoio prestado aos golpistas de 1964 ao testemunho de uma igreja martirial. Não sem dores e resistências, a começar pela teimosa negação do próprio arcebispo de São Paulo e então presidente da CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], Dom Agnelo Rossi, que, reagindo à transparente declaração do Papa Paulo VI, ao receber o Frei Domingos Maia Leite, à época provincial dos frades dominicanos do Brasil ("Estamos solidários com todos e a todos enviamos nossa bênção apostólica, especialmente aos que sofrem nas prisões"), afirmou: "Não existe perseguição religiosa no país e sim uma campanha de difamação dirigida do exterior contra o governo brasileiro”. A Igreja das comunidades de base, daqueles sofredores do campo e da cidade, já bem sabia de que lado estava o evangélico e onde estava o diabólico. Pessoalmente, eu não conheci o Brasil neste período da opressão mais violenta. A Igreja que encontrei, ao trazer de volta o corpo de Frei Tito, no início de 1983, já era outra: comunidades da periferia de São Paulo engajadas na luta social e política, comunidades camponesas de Goiás e do hoje Tocantins, resistindo à grilagem e à mercantilização da terra, e uma Ordem Dominicana em parte exangue de tanta perseguição, mas firme no seu propósito de testemunho evangélico na linha da opção preferencial pelos pobres, uma marca registrada da chamada Teologia da Libertação e das CEBs [Comunidades Eclesiais de Base]. Algumas viagens posteriores até a América Central, México, Bolívia, Peru, me confirmaram que semelhante postura – encorajada pelas orientações definidas nas Conferências do Episcopado Latino-Americano (Celam), aclimatando a este continente a abertura do Concílio Vaticano II: Medellín (libertação), Puebla (comunhão, participação), Santo Domingo (inculturação) e Aparecida (missão) - existia nos respectivos contextos onde atuavam nossos irmãos e nossas irmãs da família dominicana.
Adital: Quais foram os maiores desafios para a Igreja e a vida religiosa durante a ditadura militar? E que desafios são enfrentados hoje?
Frei Xavier: Acho que podemos resumir o desafio constante que se coloca à vida religiosa, tanto hoje como nos tempos da ditadura, pela palavra "profetismo”. Aquela ‘peteca’ que Dom Pedro Casaldáliga nos insta a não deixar cair. O profetismo é a atitude que deveria identificar, caracterizar, qualificar todos os que se reivindicam no seguimento de Jesus Cristo. Nossa fé nasce da experiência de um profeta assassinado e do testemunho dos seus amigos e seguidores. Ser profeta não é coisa que se decreta: vou ser profeta! O profetismo é a resposta a um chamado, à determinada pro-vocação que tira do comodismo. Requer vigilância e escuta aos sinais do tempo. Como resposta, o profetismo é a coerência levada até a raiz. "Ser o que se é. Falar o que se crê. Crer no que se prega. Viver o que se proclama até as últimas consequências” (Pedro Casaldáliga). Ser profeta começa pela convivência com um povo: assumir suas dores e suas alegrias, sentir suas limitações e seus sonhos, respeitar suas diferenças, comungar com seus sofrimentos, suas indignações e seus anseios de libertação, justiça e dignidade, viver a misericórdia, uma atitude que nada mais é do que a pura humanidade, a "com-paixão”: não posso ficar em paz enquanto um semelhante meu apanha, carece, sofre. O profeta abre o olho, o ouvido, as mãos e a boca. O que seria de um pregador se ficasse calado (os dominicanos levam o nome de ordem dos pregadores)? Temos este lema sugestivo, cunhado por São Tomás de Aquino para resumir o projeto da vida, segundo São Domingos: "contemplar et contemplata aliis tradere”. Literalmente: "contemplar e levar aos outros o contemplado”. Contemplar: isto é, abrir o olho e ver e apreciar e amar – não somente Deus vivo, que falou pelos profetas e continua falando, mas os homens e as mulheres com quem partilhamos uma história preciosa aos olhos de Deus; ver a terra e a criação que herdamos e cuidar; ver o que não se vê a olho nu; ver como se vislumbrasse o invisível; ver, estudar e buscar compreender; ver à luz daquilo que vale, segundo o Evangelho da vida verdadeira, plena e abundante; ver e falar o que se vê e o que não se vê; denunciar o que não dá; e anunciar o que deveria ser. A vida religiosa, dentro da Igreja, é chamada de vida consagrada: uma vida, em princípio, dedicada, despojada e livre para as coisas do Reino (de Deus), alimentada na vida comum, na partilha, no estudo, na oração e na celebração. O projeto dominicano já foi descrito como um "projeto de vida radical” (Frei Mateus Rocha). Temos dominicanos e dominicanas engajados em atividades variadas: de monja a jornalista, de professor a ativista de direitos humanos, de pároco a advogada - entre outras – e, às vezes, disso tudo um pouco e ao mesmo tempo. Entendo que é o mesmo ímpeto que levou Frei Tito e seus companheiros de jaula a resistirem à opressão, naquele tempo, e que está nos animando hoje a denunciar o trabalho escravo, a terra concentrada, a matança dos jovens, o incessante extermínio do índio, a violência homicida do preconceito, a política desvirtuada. E a anunciar, contra toda esperança que sim, tem jeito de mudar essa história. Na vida dominicana, esse projeto tem como espaço, primeiro, a própria comunidade, espaço para uma vida acordada ao ideal evangélico e, como tal, casa de pregação, ‘verbo e exemplo’ (pela palavra e pela prática). Ao celebrar 800 anos de vida em missão, a Ordem Dominicana tem consciência do quão distante e ao mesmo tempo necessário continua sendo este ideal...
Adital: Como se trabalha a formação política e de direitos humanos dentro da Ordem dominicana?
Frei Xavier: Não se pode pensar numa formação dominicana, aqui, na América Latina, sem se referir, necessariamente, a algumas testemunhas, mestres da fé, que ilustraram a história da Ordem, aqui, no continente, pela sua coragem político-evangélica. Como, por exemplo, Antônio de Montesinos e Bartolomeu de las Casas, no século 16! Ou Joseph Lebret, Mateus Rocha, Samuel Ruiz, Celso Pereira, Tomas Balduíno, Henri des Roziers, nos séculos 20 e 21. Trabalhar os direitos humanos é beber na própria história desta Ordem. (Sem dela, claro, ocultar algumas manchas de triste recordação: afinal, como em qualquer instituição e qualquer grupo social, as contradições fazem parte...). Até hoje é lembrado o nome de Francisco de Vitória, um eminente jurista da Universidade de Salamanca, na Espanha, tido como fundador do Direito Internacional dos povos. Ele que, naquele século 16, alimentou, com argumentos sólidos, a contestação do sistema colonial mortífero, genocida, uma empreitada tocada nas Américas pelo incansável confrade Bartolomeu. E segue para todos nós um modelo de atitude profética e missionária o sermão proferido pelo Frei Antônio de Montesinos, no 4º Domingo do Advento, 21 de dezembro de 1511. O texto havia sido preparado e redigido em equipe. Antônio recebeu do seu prior o preceito formal de pregá-lo aos colonizadores, em nome da comunidade. Uma mensagem de tremenda indignação, "de fogo”, como gosta de dizer nosso Frei Carlos Josaphat, e uma mensagem que não perdeu a sua atualidade até aos dias de hoje: "Vocês estão todos em pecado mortal”, em virtude dos crimes que cometiam contra os índios. "Com que direito” vocês conquistam este país, escravizam, oprimem seus habitantes? "Estes não são seres humanos” a serem respeitados em seus direitos e a serem amados por vocês, cristãos? Essa memória insurgente é a coisa mais preciosa no DNA da Ordem. Nossa família dominicana, no Brasil, se orgulha de manter uma Comissão de Justiça e Paz dedicada a tornar atual esse grito dos primeiros tempos, oferecendo meios concretos de formação, estudo e engajamento. Isso tudo traz necessárias consequências para a missão, que a família dominicana pretende assumir, e para a teologia que verbaliza, em termos atuais, a nossa compreensão do Evangelho. Uma questão de coerência entre vida e princípios, prática e teoria.
Adital: Como avalia o protagonismo da mulher dentro da Ordem dominicana?
Frei Xavier: A origem primeira da Ordem de São Domingos não foi uma comunidade de homens, mas, sim, de mulheres: as irmãs de Prouilhe (perto de Tolouse, na França) constituíram a primeira comunidade conventual, imaginada por Domingos de Gusmão, a partir da qual, na sequência, foram se enxertando e se multiplicando comunidades de pregadores itinerantes, radicados em conventos. Portanto, o protagonismo foi das mulheres, em primeira hora. Hoje mesmo, a família dominicana comporta muito mais mulheres (existe, mundo afora, cerca de 45 mil dominicanas) do que homens (em torno de 7 mil dominicanos). E, por sinal, comporta ainda muito mais leigos e leigas (cerca de 100 mil). 800 anos após a caminhada iniciada no sul da França por são Domingos, no século 13 (um momento histórico por sinal não menos perturbador do que o nosso), todos eles se reconhecem neste chamado para caminhar, defender o direito, anunciar a boa notícia da libertação, viver a alegria do Evangelho, e seguir caminhando. Desta missão, os jovens têm toda a possibilidade de participarem, em pé de igualdade. No Brasil, o movimento juvenil dominicano, o MJD (laico), é um dos espaços dessa missão comum.
Adital: Como você avalia a sociedade atual, quando se trata da busca por espiritualidade, fé e contato com o ambiente religioso?
Frei Xavier: Nossa sociedade experimenta, de forma contraditória, a tal secularização, um movimento que vem de longe e no qual a humanidade faz a experiência da sua crescente capacidade de entender a si mesma e o seu mundo, e do seu crescente poder de criar a si mesma e o seu mundo (ou destruir). Um movimento que parece destronar, irremediavelmente, o que de explicação e de poder se colocava até então no divino, no sagrado, no religioso. Para colocar no seu lugar uma razão triunfante, um desejo narcísico ou um desespero abismal? Trata-se de um movimento complexo, às vezes, exaltante, às vezes, angustiante, que obriga a depurar constantemente o que investimos na fé, e no chamado espaço religioso, deslocando valores, crenças, papéis. Da nossa capacidade de assumir e entender essa mudança de longo prazo, marcada hoje por uma aceleração inédita, depende nossa capacidade de inventar o espaço religioso, que corresponde a este momento de nossa história, sem crispação nem saudosismo, sem (novo) iluminismo nem (novo) triunfalismo. Para essa imensa conversão, esse parto, as palavras do profeta assassinado, Jesus, continuam oferecendo um norte (um sul!) precioso. Continuam sendo exigências basilares para esse trabalho a afirmação da dignidade e da liberdade do ser humano, e a fé na sua qualidade de imagem e semelhança àquele que chamamos ‘Deus’. Dito isto, é fácil verificar que não faltam, mundo afora e igualmente aqui, no Brasil, crispações e saudosismos, resistências, oportunismos, fanatismos. Propõe-se ersatze [plural da palavra alemã ersatz, que significa ‘substituto’] de religião, espiritualidades de mercado, religiosidades baratas; oferecem-se profetas de si mesmo, usurpadores do divino, novos mercadores do templo. Vale o conselho de Jesus: reconhecerei a árvore pelas suas frutas. Não adianta gritar, nem que seja ‘Senhor, senhor!’, para que venha o Reino da Justiça. Precisamos trabalhar, transformar, denunciar, anunciar, caminhar, contemplar, celebrar, acolher o inédito da promessa. Fazer, segundo outro lema da Ordem Dominicana (Veritas, domina mea), obra de verdade.
Gostou dessa informação?
Quer contribuir para que o trabalho da CPT e a luta dos povos do campo, das águas e das florestas continue? 

O último sol de Eldorado dos Carajás

  POR HEITOR VILELA 16/04/2015 ÀS 19:17 PM
Dizem que os conflitos da humanidade surgiram no momento em que o primeiro homem cercou um pedaço de terra e falou que era propriedade do mesmo. Por séculos os povos se mataram pelo controle e posse da terra. Eis que chega o estado democrático de direito e garante, entre outras coisas, o direito à terra, para quem nela trabalha. Porém, o direito à propriedade e à lei do dinheiro manda mais do que qualquer outra escala de valor humana.
Foi em meados dos anos 90’, em um lugar esquecido por Deus, pelos governantes e só lembrado por grandes latifundiários, mineradores e pelo camponês pobre: o sul do estado do Pará. Conhecido pela sua imensidão, povoado até a atualidade por índios, quilombolas e dominado por grandes fazendeiros e jagunços. Uma verdadeira terra sem lei. Afirmação seria verdadeira, porém a lei existe e é fortemente aplicada, principalmente quando é conveniente a lei do mais forte.

Caminhando

No dia do massacre, cerca de 2.500 sem terra estavam no sétimo dia de uma marcha que deveria ir até a capital do Pará, Belém, começada no dia 10 de abril.
A marcha era um protesto contra a demora na desapropriação de uma área que eles ocupavam na Fazenda Macaxeira, em Curionópolis. Seguiria de Curionópolis até a capital pela Rodovia Estadual PA-150 (hoje Rodovia Federal BR-155), que liga Belém ao sul do Estado.
Trabalhadores sem terra do sul do estado do Pará - Foto: Sebastião Salgado
Trabalhadores sem terra do sul do estado do Pará – Foto: Sebastião Salgado
O protesto atraía a imprensa e preocupava os fazendeiros da região, que se uniram para pressionar o governo.
O então governador Almir Gabriel, do PSDB, e seu secretário de Segurança Pública, Paulo Sette Câmara, acabaram ordenando que a polícia parasse a marcha a qualquer custo. E o custo foi alto, doloroso e covarde.

O massacre

E foi no trecho de uma rodovia, em um lugar que ficou conhecido como a Curva do S, no dia 17 de abril de 1996, na cidade de Eldorado dos Carajás, sul do Estado do Pará, que a PM do estado promoveu um massacre contra camponeses do MST, matando pelo menos 21 pessoas.
Sob o comando do coronel Mario Colares Pantoja e do major José Maria Pereira de Oliveira, por volta das 17 horas daquela tarde sangrenta, os 155 policiais envolvidos abriram fogo com espingardas, fuzis e semi metralhadoras contra os trabalhadores. Entre os 21 mortos, alguns apresentavam marcas de pólvora em volta dos furos das balas, indicando tiros à queima roupa. Outros foram mutilados com facões e foices.
Além dos 19 mortos daquele dia, outras três pessoas morreriam em consequência dos ferimentos sofridos durante o massacre. Ao todo, 69 pessoas ficaram feridas. Muitos convivem com balas alojadas no corpo até hoje, além do trauma e da perda de familiares e companheiros de luta.
Ilustração retratando o massacre pelo chargista Carlos Latuff
Ilustração retratando o massacre pelo chargista Carlos Latuff
O comando da operação estava a cargo do coronel Mário Colares Pantoja, que foi afastado, no mesmo dia, ficando 30 dias em prisão domiciliar, determinada pelo governador do Estado, e depois liberado. Ele perdeu o comando do Batalhão de Marabá. O ministro da Agricultura, Andrade Vieira, encarregado da reforma agrária, pediu demissão na mesma noite, sendo substituído, dias depois pelo senador Arlindo Porto.
Uma semana depois do massacre, o Governo Federal confirmou a criação do Ministério da Reforma Agrária e indicou o então presidente do Ibama, Raul Jungmann, para o cargo de ministro. José Gregori, que na época era chefe de Gabinete do então ministro da Justiça, Nelson Jobim, declarou que “o réu desse crime é a polícia, que teve um comandante que agiu de forma inadequada, de uma maneira que jamais poderia ter agido”, ao avaliar o vídeo do confronto.
Um dos mortos pela Policia Militar a mando dos fazendeiros da região - Foto: Sebastião Salgado
Um dos mortos pela Policia Militar a mando dos fazendeiros da região – Foto: Sebastião Salgado
O então presidente Fernando Henrique Cardoso determinou que tropas do Exército fossem deslocadas para a região em 19 de abril com o objetivo de conter a escalada de violência. O presidente pediu a prisão imediata dos responsáveis pelo massacre.

Memória

Após o massacre, o dia 17 de abril passou a marcar o Dia Mundial da Luta pela Terra. A Fazenda Macaxeira, cujo dono foi um dos mandantes da matança, foi desapropriada finalmente e hoje abriga o assentamento de nome: 17 de Abril.
O Monumento Eldorado Memória, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer para lembrar as vítimas do massacre dos sem-terra, inaugurado no dia 7 de setembro de 1996, em Marabá, foi destruído dias depois. Um dos líderes dos sem-terra do Sul do Pará afirmou que a destruição foi encomendada pelos fazendeiros da região. O arquiteto disse que já esperava por isso. “Aconteceu o mesmo quando levantamos o monumento em homenagem aos operários mortos pelo Exército na ocupação da CSN, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro”, comentou.
Porém, eventualmente 19 árvores mortas, uma para cada vítima, foram encontradas e dispostas formando o contorno do mapa do Brasil. Assim, em abril de 1999, na curva do S, local do massacre, mais de 800 sobreviventes construíram um monumento em homenagem aos 19 sem-terra mortos. O trabalho foi denominado de “As castanheiras de Eldorado dos Carajás”.
No centro do monumento, abaixo dos troncos das árvores, foi colocado um altar, intitulado pelos militantes de Altar de Protesto, uma espécie de tronco de castanheira cercado por 69 pedras pintadas de vermelho. No altar está cravada uma placa, com o nome dos 19 mortos no dia 17 de abril de 1996, como forma de homenagem.
Monumento das castanheiras na curva do S - Foto: Reprodução
Monumento das castanheiras na curva do S – Foto: Reprodução
O Sonho e o Tempo
(Ademar Bogo)
O sonho se fez tempo
Plantado sobre a teimosia que se fez berço
Para dar vida ao guerreiro que decidiu nascer.
São quinze anos de tempo e mais de sonhos
Que a voz do povo buscou chamar a terra
E se fez força da paz fazendo guerra.
Batalhas marcam os dias
Os livros marcam a história
Os hinos as alegrias.
O pranto também faz parte desse longo caminhar
Cumpre o papel de regrar o sinhô tão valente
De quem acreditou que plantando sangue renasceria
E em cada passo que o povo daria…
Nas vitórias viveria eternamente
E a terra feito um lençol macio se estende
Oferecendo seu colo umedecido
Ainda expondo os destroços da última batalha.
Mas isso é seguir em frente e querer mais
Forjar novas gerações
Mesmo que custe sacrifício às atuais.
E os olhos do sol se abrem para fazer amanhecer
Nas quatro pontas do eito empoeirado
Com marcas de latifúndios entocaiados
Erguem-se homens, mulheres e meninos
Riscando com um sopro a linha do destino
E marcam as próprias mãos
Com calos que lhe dão dignidade
É a terra que resgata o ser humano
Plantando na consciência
Coragem e resistência
Para fazer nascer a solidariedade
E os mantos de lonas escaldantes
Se desenrolam para formar cidades
Sem muros nem dor da gente errante
Cada qual desenhando seu lugar
Deixando a porta aberta para a linha do horizonte
Onde está a bandeira envaidecida
Chamando com sua dança para seguir adiante
Agora sobre a terra escrevem-se com enxadas
Palavras que formam fartura e unidade
Não haverá mais fome nem tristeza
O vale ressecado volta a ter beleza
E a voz entoa louvando a liberdade
Os lábios sorridentes deixam cair a saliva adocicada
Misturada com o caldo da cana que escorre tão perfeito
Não haverá outras faces mais felizes
Do que estas penetradas de valores com raízes
Que nascem da alegria do coração
Do sonho e da paixão
Que cada um de nós
Planta em nosso peito.

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