domingo, 3 de dezembro de 2017

“Existe um Zumbi em cada um de nós”

​Em entrevista para Página do MST, Marcos Rezende do Coletivo de Entidades Negras afirma que o racismo não é apenas uma questão social, mas sim, uma ferida profunda em nossa sociedade
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Por Wesley Lima 
Da Página do MST 

A luta pela terra, por Reforma Agrária e pelo Socialismo, caminha lado a lado com a defesa da liberdade, dignidade e emancipação. Tais bandeiras, são a base dos processos históricos de resistência protagonizados pela população negra, que cotidianamente são negados direitos básicos, como saúde, educação, salários dignos, que se convertem num amplo processo de marginalização social.

Ao aprofundar essas questões, com ênfase no 20 de novembro, data em que Zumbi dos Palmares foi morto, Marcos Rezende*, do Coletivo de Entidades Negras (CEN), fala do processo de construção de sua identidade, enquanto sujeito político, e dos enfrentamentos históricos do Movimento Negro. 

Em entrevista para Página do MST, Rezende afirma que o racismo não é apenas uma questão social, mas uma questão muito mais aprofundada que está no seio da sociedade e, por isso, é necessário debater classe, raça e gênero. 

Ainda na infância, ele conta que sentia na pele o peso de ser negro e diz que essas primeiras opressões materializaram o sujeito militante. “Eu digo que a minha militância começou, não através de uma vontade individual, revolucionária, mas através de um despertar causado por meus colegas de escolas, que reproduziam o racismo, isso sem muita responsabilidade, mas era um tom jocoso que me despertou para questões raciais”.
Nesse mesmo contexto, acredita que as lutas em defesa da vida são marcas de uma chama ancestral que existe dentro de cada um e cada uma. “Existe um negro guerreiro disposto a dá sua vida por independência, por liberdade, em cada um de nós”, destaca.

Confira a entrevista na íntegra: 

O processo de construção de nossa militância diz muito sobre as lutas e enfrentamentos que vivenciamos no dia a dia. Fale um pouco sobre esse aspecto e como ele incide na sua identidade enquanto negro.

Creio que minha militância não foi uma escolha, porquê a violência do racismo nos torna militante, mesmo sem a gente saber. Essa violência nos transforma em negros e foi com nove anos de idade que comecei a perceber essas coisas. Porém, foi com 11 anos que comecei a questionar essas questões. É importante nos atentarmos que esse é um processo continuado, que vai se perpetuando durante décadas da minha vida.

Eu digo que a minha militância começou, não através de uma vontade individual, revolucionária, mas através de um despertar causado por meus colegas de escolas, que reproduziam o racismo, isso sem muita responsabilidade, mas era um tom jocoso que me despertou para questões raciais.

Minha militância se aprofunda quando eu entro no Olodum, porque eu começo a realizar trabalhos, auxiliando a diretora criativa na época que era Sinome Magalhães. Ela foi uma tutora e me ensinou o passo a passo do cotidiano das lutas do Movimento Negro. Não posso esquecer de João Jorge, presidente do Olodum na época, que foi fundamental também o processo de construção da ideia militante.

O racismo não é apenas uma questão social é uma questão muito mais aprofundada que está no seio da sociedade e por isso, é necessário debater classe, raça e gênero. Depois do Olodum, a gente construiu o Coletivo de Entidades Negras (CEN). Construir o CEN foi um chamado religioso, porque neste processo eu entrei num terreiro de candomblé que tinha um afoxé [...] O CEN não foi uma entidade fabricada, pensada, arquitetada numa sala com ar condicionado, com estatuto. O CEN foi uma construção coletiva e se constituiu com a força e desejo de uma gama de atores e atrizes das lutas populares. Por isso, nos colocamos enquanto entidade política do Movimento Negro.

Quais são as principais bandeiras do Movimento Negro e o papel que possuí no processo de organização das lutas populares contra o racismo? 

Falar das bandeiras de luta do Movimento Negro, nos remete a pensar os processos históricos de luta e nossa tradição, que nos remete a ancestralidade, que para nós não é uma coisa que está parada na África, distante, algo morto, pelo contrário, é algo que está muito vivo dentro de nós e continua com a gente. Essa ancestralidade foi o que fez uma série de homens e mulheres negros, mesmo trazidos para cá no processo do escravismo, foram mantendo uma cultura que apesar de todas as violências e opressões se manteve viva.

Mas, esse conjunto do que a gente chama de Movimento Tradicional Negro se inicia com uma pauta da década de 70, porém antes disso, nós já tínhamos as irmandades, os terreiros de candomblé, os capoeiristas, que, essencialmente, tinham uma série de elementos de resistência que foram formulando, muitas vezes de forma consciente ou inconsciente, uma pauta que era de emancipação do povo negro. Essas irmandades começaram com uma pauta que dura até hoje, como por exemplo, a irmandade dos homens pretos que já lutava para que a gente tivesse uma liberdade econômica. 

Quando pensamos nesse Movimento, precisamos entender que existe racismo no Brasil. A sociedade dizia que aqui não tinha racismo, porque todo mundo era mestiço. Nós passamos por um processo de mestiçagem, no entanto não é só isso, existe o racismo. Mesmo com o processo de mestiçagem não quer dizer que o racismo foi eliminado [...] Esse movimento problematizou essas questões na década de 70 e nós trazemos essa pauta que já avançou bastante. 

Porém, temos como principal bandeira de luta a questão do extermínio ou genocídio da juventude negra, que é uma pauta muito importante. Nós temos também a pauta do encarceramento em massa do povo negro, que traz vestígios do escravismo, isso porque sempre que o povo negro avança em um campo, são construídas outras formas de encarcerar, seja pelo debate da guerra às drogas, que é mais uma justificativa da guerra aos negros. Outro ponto é a violência que as mulheres negras passam em todos os campos da sociedade, que vai desde o feminicídio até os piores salários, isso quando tem salário. 

Os povos de terreiro e comunidades tradicionais também bandeiras do Movimento Negro. Ou seja, nossas lutas dizem respeito ao mínimo, que é continuar existindo. Temos ainda as pautas do empreendedorismo negro, as questões educacionais [...] o direito e o acesso à terra, a comunicação, o poder, ao cotidiano de política.

Olhando para esse berço histórico onde nasce as pautas e lutas do Movimento Negro, que instrumentos de reivindicação e denúncia têm se consolidado? 

Atualmente, o Movimento Negro tem denunciado a forma como se tem abandonado, ou não olhado, às violências cotidianas que nosso povo tem sofrido. Então, por exemplo, no campo das religiões de matriz africana, estamos fazendo denúncias na OEA e na ONU, do que de fato estamos chamando de racismo religioso. Várias denúncias são feitas cotidianamente, porém o Estado nunca tratou com o devido cuidado. 

A questão das terras das comunidades quilombolas tem sido uma denúncia permanente, assim como o assassinato de lideranças e a garantia de documentação de reconhecimento daquelas comunidades. Nossa forma de denúncia e de pressão tem se dado na apresentação e debate desses pontos em todos os ambientes e espaços de lutas possíveis. 

Fazemos as denúncias, mas sabemos que no capitalismo não tem saída. Acreditamos que todo negro precisa ser de esquerda, precisa ser socialista, porque as estruturas do capitalismo são elitistas e as pessoas que detém todas essas estruturas construíram esse sistema na exclusão e escravização do povo negro e isso nunca vai chegar nas nossas mãos e, mesmo que chegue, nós não queremos fazer parte de um sistema que sempre na base teremos milhões ou bilhões dos nossos descendentes em extrema pobreza.

Quais são os desafios que o Movimento Negro possuí para o próximo período diante deste cenário de instabilidade democrática, avanço das forças imperialistas e do projeto neoliberal no mundo todo?

Essa desarrumação da sociedade brasileira representa uma mudança em toda sociedade. Aonde vai parar isso? A gente não sabe. Mas, uma coisa nós sabemos, que existe a possibilidade de arrumarmos as nossas forças. Exemplo disso, é o aumento do trabalho dentro das periferias e comunidades, que tem sido feito pelo movimento negro de forma bem sistemática. 

Uma conquista importante foi o Estatuto de Promoção da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa do Estado da Bahia, que só foi possível pela unidade dos movimentos negros baianos e por termos dois deputados negros que catalisaram isso (primeiro Valmir que fez o projeto enquanto deputado estadual e depois Bira Corôa, que tocou o projeto para aprovação). Isso mostra a importância da representatividade. 

Nós percebemos que neste momento de crise política, institucional, as últimas lutas têm nos garantido muitas vitórias, mesmo diante desta avalanche de retrocessos para o conjunto da classe trabalhadora. Hoje, nós percebemos que qualquer comunidade negra, em qualquer lugar desse país, sabe que é negra. Não tem mais aquela coisa ‘não sabe se é negra’. A identidade racial chegou em todos os lugares e isso é uma grande vitória. 
Nossas tarefas no futuro têm haver com nosso processo de organização das bases e aprofundamento do debate racial em diversos espaços. Nossas pautas de luta através das amplas crises se convergiram para algo no Movimento Negro chamado de Convergência Negra Brasileira, que é mais um espaço de combate a violência, que representa o golpe de estado consolidado com Temer. 

Temos a tarefa de fazer a esquerda compreender que estamos lutando pelos nossos direitos e não vamos nos curvar para ninguém. Precisamos refundar o que é ser de esquerda nesse país, para colocarmos na rua o que significa ser negro na sociedade hoje. A nossa esquerda precisa ser de classe, raça e de gênero [...] A curto prazo, acreditamos que o 20 de novembro é um espaço importante que podemos fazer não só as denúncias, mas as experiências positivas e exitosas da comunidade negra brasileira nos últimos anos.

Nessa data, quando falamos de Zumbi, para muitos parece que é o sujeito mítico, distante, que ficou lá em palmares há anos atrás. O que a gente está dizendo quando estamos falando sobre o mês da consciência negra é que existe um Zumbi dentro de cada um de nós. Existe essa chama de ancestralidade dentro de cada um de nós. Existe um negro guerreiro disposto a dá sua vida por independência, por liberdade dentro de cada um de nós. Dentro de cada homem ou mulher negra, de cada idoso, de cada criança, de cada um que venha a nascer. Existe um Zumbi, uma Dandara vivos gritando por liberdade, por um outro mundo possível para gente. 

*Coordenador Geral do Coletivo de Entidades Negras/CEN, entidade nacional do movimento negro e Ogan de Ewá do Ilê Axé Oxumarê, Marcos Rezende é ativista do movimento negro e de direitos humanos. É formado em História com Pós Graduação em História e Cultura Afro Brasileira e Mestre em Desenvolvimento e Gestão Social pela UFBA.

A resistência negra brasileira também é mulher negra camponesa

Enfrentar uma luta que combina as relações sociais de raça, gênero e classe com a questão da terra, requer a conquista de espaços em diferentes dimensões da existência.
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Por Iris Pacheco* e Rosineide Pereira**
Da Página do MST

“Sabe qual é o negro mais bonito do mundo?
É aquele que tem consciência de suas raízes, de suas origens culturais.
É aquele que tem a atitude de quem sabe que é ele mesmo,
e não um outro determinado pelo poder branco.”

(Lélia Gonzalez)

Ao pensarmos na constituição da classe trabalhadora brasileira devemos considerar a combinação da relação entre patriarcado e racismo no capitalismo, cujo impacto na luta emancipatória do povo é estruturante, não podendo, portanto, se materializar se não houver rompimento com as bases da opressão e exploração burguesa. 

No capitalismo, as relações econômicas fundamentais se constroem a partir da exploração da força de trabalho. Essa relação econômica, possibilita a acumulação de capital, estrutura as relações sociais entre as classes, mas não explica todas as determinações que configuram a totalidade do processo. Nenhuma sociedade é capaz de prescindir do trabalho feminino e ao longo do tempo as sociedades pautaram as relações de trabalho entre os diferentes gêneros, classes e raça.

Ao trazer essa análise para a realidade do campo brasileiro, baseada em nossa experiência de militância no MST, apontamos que a maioria das pessoas que compõe os acampamentos e assentamentos são negras. Tal constatação evidencia que, como negras e negros, os Sem Terra consequentemente também são vítimas do racismo estruturado em nossa sociedade, ora camuflado, ora revelado, combinado com o preconceito de classe. Isso nos coloca o desafio de compreender qual é a relação da luta pela terra com o debate da questão racial no Brasil, e como enraizar no conjunto da classe esse nexo histórico. Nesse sentido, assinalamos nesta reflexão, sobretudo, os aspectos poucos conhecidos e estudados no que se refere à figura da mulher negra e camponesa na resistência negra brasileira.

A superexploração das mulheres negras no campo remonta ao período escravista colonial, onde estas eram vulneráveis à todas as formas de violência, principalmente a violência sexual. Angela Davis salienta que “o estupro, na verdade, era uma expressão ostensiva do domínio econômico do proprietário e do controle do feitor sobre as mulheres negras na condição de trabalhadoras”.¹ Assim, o capitalismo, que é um sistema social que depende da exploração da força de trabalho, também se formou sob as mãos de negras e negros escravizados. No entanto, não é apenas essa evidência que coloca a opressão às mulheres negras em uma dimensão histórica. O período pós-colonial e a generalização do trabalho livre também aprofundam essa opressão racista. 

Para compreender esse contexto se fez necessário entender que no Brasil, a terra se configura como um fator estruturante. Isto porque estamos falando da transformação da terra em mercadoria, como parte de um processo mundial de desarticulação do sistema escravista e de desenvolvimento de um mercado consumidor na periferia do capital. Ou seja, quem tem o controle da terra possui também a concentração do poder político, econômico, mais tarde do midiático, e por consequência, os padrões hegemônicos de representação da realidade.

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Nesse aspecto é preciso compreender que não foram as diferenças entre os traços biológicos e culturais que tomaram proporções que interferiram diretamente no processo histórico, e sim as formas de integração subalterna dos nossos territórios que se utilizaram de diferenças “raciais” e culturais. Segundo Florestan, “as desigualdades raciais no Brasil foram sendo incorporadas ao regime de classes, isso significa que mesmo com o trabalho 'livre', a 'raça' ainda era usada como um fator de ajustamento social”.

O escravismo colonial resultou no racismo e na manutenção do latifúndio com feridas ainda abertas, que transformaram a questão agrária e a questão racial em eixos estruturantes da desigualdade social brasileira. Na tentativa de omitir essa violência foram construídas teorias racialistas, que vão desde o discurso da inferioridade racial à construção de um ideal de embranquecimento compreendido como um projeto nacional, que se funda na concepção de miscigenação seletiva, e no mito da democracia racial que contribuiu para a construção da imagem das relações raciais como “pacíficas”.

Nesse contexto, as mulheres negras camponesas, alijadas pelo sistema social, foram relegadas à pobreza e à marginalidade, submetidas a distintas explorações no que se conforma hoje como campo brasileiro, aprofundadas pelo patriarcado e o racismo. Porém, a resistência negra brasileira também é mulher negra e camponesa, pois estas desenvolveram formas importantes de participação e liderança na organização de ações de resistências ao sistema escravista que seguiu após a abolição até os dias de hoje.

O reconhecimento dessa resistência é fundamental quando pensamos na necessidade crescente de organização e disposição para continuidade dessa luta. Uma vez que, a dupla exploração da mulher negra durante o período da escravidão colonial (por um lado na produção, no outro a reprodução da força de trabalho), e o lugar da mulher negra na reprodução atual da "população excedente" (setor crescente na nova configuração do capital), apontam que o racismo se atualiza como imperativo para a implantação do novo modelo de acumulação capitalista.

É fato que a escravidão tem um impacto profundo na vida das negras e dos negros. Os resquícios do colonialismo permanecem entranhados em nossa sociedade e são responsáveis pela manutenção da opressão racial. A interiorização da condição de inferioridade, que em muitos casos, inibe a reação e a luta contra a violência sofrida, é um sintoma de que não é possível acabar com a opressão de gênero sem dar conta das relações sociais existentes com as questões de raça e classe, especialmente, por que não dá para enfrentar o racismo enquanto você ainda se odeia.

Logo, o desafio não é simples. Enfrentar uma luta que combina as relações sociais de raça, gênero e classe com a questão da terra, requer a conquista de espaços em diferentes dimensões da existência. No entanto, temos a noção que para empreender esta luta, é necessário engendrar forças maiores e mais potentes. As mulheres camponesas negras têm buscado dar resposta à altura dos desafios do seu tempo fazendo o enfrentamento ao agronegócio e o capital por dentro dos movimentos populares do campo. Porém, existem muitos desafios que precisam ser encarados e que passam pelo processo de dar visibilidade ao trabalho das mulheres camponesas no enraizamento da cultura camponesa, considerando sua raiz afro-brasileira e pautando a superação dos altos índices de violência, a dificuldade de acesso às políticas públicas e os obstáculos na defesa do seu território.

Neste contexto em que um golpe se realiza no Brasil, as desigualdades que marcam a sociedade brasileira se tornam mais evidentes e coloca para as mulheres do campo a necessidade de relacionar pautas históricas em seu calendário de luta e de organização pela transformação social, o enfrentamento das lutas estruturais contra o patriarcado e o racismo, que se configuram como base da opressão e exploração da elite brasileira. As ferramentas da classe trabalhadora, como os meios de comunicação e as formas de lutas, precisam ser tomadas pelas mulheres para se avançar na construção de uma perspectiva feminista popular atrelada à consciência de classe que liberte as mulheres negras dos grilhões da escravidão moderna em nossa sociedade.

¹ DAVIS, Angela. Mulheres, Raça e Classe. Boitempo Editorial, São Paulo, 2016.

* Iris Pacheco é integrante da Direção Nacional do MST, Jornalista e Especialista em Teologia das Religiões Afro-brasileiras.
** Rosineide Pereira é integrante da Direção Nacional do MST, historiadora e mestranda em geografia.



***Editado por Rafael Soriano

domingo, 5 de novembro de 2017

O ANALFABETISMO JUVENIL E O ENSINO SUPERIOR

Otaviano Helene24/02/2012

Para saber que nível edu­ca­ci­onal é o ne­ces­sário para cada um e para a so­ci­e­dade como um todo, em um de­ter­mi­nado mo­mento his­tó­rico e em um de­ter­mi­nado país, há que se res­ponder a al­gumas per­guntas. O nível edu­ca­ci­onal mí­nimo ofe­re­cido para a po­pu­lação per­mite, a todos, a plena con­quista dos di­reitos de ci­da­dania? Os qua­dros pro­fis­si­o­nais for­mados res­pondem às ne­ces­si­dades do país? O sis­tema edu­ca­ci­onal é um ins­tru­mento para su­perar as de­si­gual­dades, ob­je­tivo es­pe­ci­al­mente re­le­vante para países com altos ní­veis de de­si­gual­dades como o nosso, ou está, ao con­trário, sendo usado para mantê-las? A evo­lução da edu­cação formal ao longo do tempo é ade­quada? O nível edu­ca­ci­onal médio da po­pu­lação é su­fi­ci­ente para ga­rantir a so­be­rania na­ci­onal frente às de­mais na­ções?
Vamos exa­minar esse úl­timo ponto, em es­pe­cial, vamos ver como nos com­pa­ramos com os de­mais países. Não vamos nos es­tender em aná­lises muito de­ta­lhadas. Vamos exa­minar apenas dois in­di­ca­dores que re­velam o de­sem­penho re­cente nos dois ex­tremos do sis­tema edu­ca­ci­onal, a al­fa­be­ti­zação ju­venil e a taxa de ma­trí­cula no en­sino su­pe­rior. Esses dois in­di­ca­dores são su­fi­ci­entes para uma ava­li­ação ampla, em­bora não de­ta­lhada, do nosso sis­tema edu­ca­ci­onal. Afinal, a al­fa­be­ti­zação ju­venil re­flete o de­sem­penho do sis­tema edu­ca­ci­onal em pe­ríodos re­centes e a taxa de in­clusão no en­sino su­pe­rior re­flete tanto as pos­si­bi­li­dades do país no que diz res­peito à for­mação de uma força de tra­balho mais so­fis­ti­cada como as pos­si­bi­li­dades de pro­gressão de um es­tu­dante ao longo do sis­tema edu­ca­ci­onal. Vamos, também, nos res­tringir aos países da Amé­rica do Sul, par­ti­ci­pantes da mesma re­a­li­dade ge­o­po­lí­tica.
Na ta­bela apa­recem as taxas de al­fa­be­ti­zação ju­venil e as taxas brutas de ma­trí­cula (1) no en­sino su­pe­rior dos países sul-ame­ri­canos se­gundo dados sis­te­ma­ti­zados e di­vul­gados pela Unesco.
País
Taxa de al­fa­be­ti­zação de jo­vens entre 15 e 24 anos. Ano de re­fe­rência: 2009
(%)
Taxa bruta de ma­trí­cula no en­sino su­pe­rior (gra­du­ação e pós‑gra­du­ação). Ano de re­fe­rência: 2010
(%)
Ar­gen­tina
99,2
71
Bo­lívia
99,1b
39a
Brasil
97,8b
36
Chile
98,9
59
Colômbia
97,9
37
Equador
96,8
40b
Guiana
...
11
Pa­ra­guai
98,8a
37
Peru
97,4a
35c
Su­ri­name
99,4b
12d
Uru­guai
99,0b
63
Ve­ne­zuela
98,4a
78
Fonte dos dados: Unesco Ins­ti­tute for Sta­tis­tics, con­sul­tada em fe­ve­reiro/2012.
a: 2007; b: 2008; c: 2006; d: 2002; ... não há dados re­centes dis­po­ní­veis.
No que diz res­peito à al­fa­be­ti­zação ju­venil, o Brasil ocupa a ter­ceira pior po­sição entre os países sul-ame­ri­canos, apenas me­lhor do que o Peru e o Equador. De­vemos ob­servar que esses dois países apre­sentam re­a­li­dades po­pu­la­ci­o­nais bem di­fe­rentes das nossas: entre 20% (Equador) e 45% (Peru) da po­pu­lação desses países falam lín­guas di­fe­rentes, têm há­bitos, va­lores, tra­di­ções cul­tu­rais e ati­vi­dades econô­micas também bas­tante di­fe­rentes da­queles da mai­oria da po­pu­lação e se con­cen­tram, ainda, em re­giões es­pe­cí­ficas do país. Assim, não apenas es­co­la­rizá‑los e al­fa­be­tizá‑los é mais di­fícil, como as conseqüên­cias do anal­fa­be­tismo (como as pos­si­bi­li­dades de in­serção econô­mica e so­cial no meio em que vivem) são menos graves (2). O Brasil não tem essas ca­rac­te­rís­ticas: nossa po­pu­lação, em­bora seja uma com­po­sição de di­fe­rentes povos ori­gi­ná­rios de vá­rias partes do Mundo, com a ex­ceção de cerca de 800 mil in­dí­genas (0,4 % da po­pu­lação e parte deles in­te­grada ao res­tante da po­pu­lação), fala a mesma língua e tem ba­si­ca­mente os mesmos va­lores cul­tu­rais, ou pelo menos não tão di­ver­si­fi­cados como as po­pu­la­ções da­queles ou­tros dois países. Além disso, a por­cen­tagem da po­pu­lação ur­bana é bem maior no Brasil (82%) do que no Equador (63%) e no Peru (73%) (3), fator que cer­ta­mente fa­ci­lita a es­co­la­ri­zação. Como pra­ti­ca­mente a to­ta­li­dade da po­pu­lação bra­si­leira está in­se­rida na mesma re­a­li­dade de pro­dução e re­la­ções econô­micas, o anal­fa­be­tismo ju­venil entre nós tem conseqüên­cias so­ciais muito graves: dos jo­vens anal­fa­betos entre 15 e 24 anos, muitos são anal­fa­betos ur­banos, que dis­putam po­si­ções de tra­balho com o res­tante da po­pu­lação, e todos pre­cisam in­ter­pretar a mesma re­a­li­dade.
Quanto aos in­di­ca­dores quan­ti­ta­tivos do en­sino su­pe­rior, es­tamos em me­lhor po­sição, no que diz res­peito às taxas de ma­trí­cula e entre os países sul‑ame­ri­canos, apenas do que Guiana, Su­ri­name e Peru. Vale lem­brar que Guiana (an­tiga Guiana In­glesa) e Su­ri­name (an­tiga Guiana Ho­lan­desa) são países cujas in­de­pen­dên­cias ocor­reram apenas no final do sé­culo XX, car­re­gando, assim, uma carga his­tó­rica pe­sada do mesmo tipo da­quela car­re­gada pelas ex‑colô­nias afri­canas re­cen­te­mente in­de­pen­dentes e que estão entre os países mais po­bres do mundo (4). Ainda como com­pa­ração, nossa taxa de ma­trí­cula no en­sino su­pe­rior, de 36%, é cerca da me­tade da­quelas en­con­tradas na Ar­gen­tina (71%) ou na Ve­ne­zuela (78%). Além disso, de­vemos ob­servar, esses dois úl­timos países apre­sentam taxas de pri­va­ti­zação do en­sino su­pe­rior me­nores do que as nossas.
Esse breve ba­lanço mostra que, mesmo com­pa­rado com países que ocupam o mesmo es­paço ge­o­po­lí­tico que nós, nossa si­tu­ação é bas­tante pre­o­cu­pante. Evi­den­te­mente, uma aná­lise apenas quan­ti­ta­tiva é in­su­fi­ci­ente para uma visão ampla do pro­blema. En­tre­tanto, os dois ín­dices ana­li­sados mos­tram a di­mensão dos pro­blemas que te­remos que en­frentar para cons­truir uma real de­mo­cracia.
Notas:
(1) A taxa bruta de ma­trí­cula é a re­lação entre a po­pu­lação ma­tri­cu­lada em um de­ter­mi­nado nível edu­ca­ci­onal, in­de­pen­den­te­mente da idade, e a to­ta­li­dade da po­pu­lação na idade cor­res­pon­dente àquele nível edu­ca­ci­onal.
(2) Essas ob­ser­va­ções não pre­tendem, evi­den­te­mente, mi­ni­mizar as conseqüên­cias do anal­fa­be­tismo, mas, sim, es­ta­be­lecer pa­râ­me­tros re­fe­ren­ciais que per­mitam com­parar países di­fe­rentes.
(3) http://​www.​nat​ionm​aste​r.​com/, con­sul­tada em fe­ve­reiro de 2012
(4) A taxa de al­fa­be­ti­zação ju­venil do Su­ri­name, re­la­ti­va­mente alta, su­gere que esse país pode estar en­fren­tando seu atraso edu­ca­ci­onal a partir dos ní­veis ini­ciais.
Ota­viano He­lene, pro­fessor no Ins­ti­tuto de Fí­sica da USP, foi pre­si­dente do Ins­ti­tuto Na­ci­onal de Es­tudos e Pes­quisas Edu­ca­ci­o­nais Anísio Tei­xeira (Inep).


0#1 RE: O analfabetismo juvenil e o ensino superior — Artur 26-05-2012 18:43
Para mim um absurdo o país mais rico, com maior economia latino-americana, sexta economia do planeta com uma educação medíocre dessas!! estamos no nível intermediário dentro do nosso próprio continente a América Latina isso é uma vergonha!! cadê as nossas riquesas e nossa distribuição!!!
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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Mestrado em Educação do Campo

Aberta seleção para Aluno Regular turma 2018


Publicado: Quarta, 18 Outubro 2017 16:31
Estão abertas as inscrições para o Processo Seletivo para Aluno 

Regular - Turma 2018 do Programa de Pós-Graduação em Educação do Campo (PPGEDUCAMPO) do CFP/UFRB / Curso de Mestrado Profissional em Educação do Campo.
Com a recente aprovação no resultado da Avaliação Quadrienal (2013-2016) dos Programas de Pós-Graduação divulgado pela Capes no último dia 20 de setembro, o PPGEDUCAMPO recredenciou-se para continuar ofertando novas turmas.Com a aprovação obtida, o Programa lançou o Edital do Processo Seletivo para Aluno Regular - Turma 2018, que ofertará 20 vagas.
Confira os arquivos:
Fonte: https://www1.ufrb.edu.br/ppgeducampo/noticias/44-aberta-selecao-para-aluno-regular-turma-2018




O Fórum de Educação do Campo do Recôncavo e do Vale do Jiquiriçá, esta promovendo a CAMPANHA FECHAR ESCOLA ESCOLA É CRIME! O objetivo é chamar atenção para as autoridades políticas, dos grandes impactos negativos para a população do campo.

"O fechamento das escolas no campo não pode ser entendido somente pelo viés da educação. O que está em jogo é a opção do governo por um modelo de desenvolvimento para o campo, que é o agronegócio”

Participe, lute, defenda a escola do campo!











A presidenta Dilma Rousseff sancionou lei que torna mais difícil o fechamento de escolas rurais, indígenas e quilombolas. A Lei 12.960, de 27 de março, muda a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) aumentando o número de exigências a serem cumpridas antes do fechamento desse tipo de escola. A sanção da lei está na edição de hoje do Diário Oficial da União (DOU).
Com a mudança na LDB, será necessário que um órgão normativo do sistema de ensino, como os conselhos municipais de educação, se manifeste a favor do fechamento da escola, antes que seja determinado o encerramento das atividades do estabelecimento de ensino. Também será necessário ouvir a comunidade escolar e a apresentação de justificativa formal pela Secretaria de Educação do estado, antes do fechamento das escolas.
Na justificativa do projeto, o então ministro da Educação, Aloizio Mercadante (hoje à frente da Casa Civil), afirmou que decisões tomadas sem consulta causam transtornos à população rural que deixa de ser atendida ou passa a demandar serviços de transporte escolar. Nos últimos cinco anos, foram fechadas mais de 13 mil escolas do campo.



Campanha contra fechamento de Escola: Notícias do MST


Mais de 4 mil escolas do campo fecham suas portas em 2014

Se dividirmos esses números ao longo do ano, temos oito escolas rurais fechadas por dia em todo país. Nos últimos 15 anos, mais de 37 mil unidades encerraram as atividades.

Por Maura Silva
Da Página do MST

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco
a sociedade muda”, já dizia Paulo Freire em uma de suas mais famosas citações.

Todavia, o cruzamento de dados disponíveis pelo Censo Escolar do Instituto
 Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) nos
mostra que a educação no campo corre no sentido contrário.

Apenas em 2014, mais 4.084 escolas do campo fecharam suas portas.
Se pegarmos os últimos 15 anos, essa quantidade salta para mais de
37 mil unidades educacionais a menos no meio rural.

Se dividirmos esses números ao longo do ano,
temos oito escolas rurais fechadas por dia em todo país.

Dentre as regiões mais afetadas, norte e nordeste lideram o ranking.
Só em 2014 foram 872 escolas fechadas na Bahia.
O Maranhão aparece no segundo lugar,
com 407 fechadas, seguido pelo Piauí com 377.

Há tempo que estes números preocupam entidades e movimentos sociais ligados
ao campo e à educação, ainda mais pelo fato dos municípios mais pobres serem
os mais afetados.
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Para Clarice Santos, professora da Universidade de Brasília (UnB), “esses números
revelam o fracasso da atual política de educação no campo”.

Para ela, os instrumentos criados precisam ser revistos para que se alcance o
resultado esperado. “Se por um lado existe um esforço do governo federal em
ampliar o transporte escolar rural, por outro, esse esforço não é o mesmo para
evitar o fechamento das escolas”, exemplifica.

“Não faz sentido pensarmos em transporte sem alunos. Ou seja, é um conjunto
 de critérios que demonstram as falhas das atuais políticas educacionais",
ressalta Santos.

Já para Erivan Hilário, do setor de educação do MST, o fechamento destas escolas
 representa um atentado à educação, um direito historicamente conquistado.

"O fechamento das escolas no campo não pode ser entendido somente pelo viés
da educação. O que está em jogo é a opção do governo por um modelo de
desenvolvimento para o campo, que é o agronegócio”, aponta.

Segundo Erivan, a situação que vivemos “não está isolada desta opção, porque o
agronegócio pensa num campo sem gente, sem cultura e, portanto, um campo sem
educação e sem escola”.

Ele observa que ao mesmo tempo em que há fechamento sistematizado das escolas
 no campo, o número de construções de novas unidades educacionais nos centros
 urbanos têm crescido.

“Esse é um dado importante de ser analisado. O fechamento das escolas do campo
 contribui para o êxodo rural, além de consolidar o papel do agronegócio nessas
 regiões com a priorização dos lucros”, ressalta.

Além da falta de escolas, outro fenômeno observado é a chamada “nucleação”,
quando várias unidades escolares são concentradas numa “escola polo”.
Isso tende a minar cada vez mais a educação já cambaleante nestas regiões,
dificultando o processo de aprendizagem e crescimento de crianças e jovens.

Empurra-empurra

A falta de investimento das prefeituras locais é apontada como um dos grandes
motivos para o fechamento das escolas no campo.

As prefeituras, por sua vez, alegam que o número de alunos matriculados não é o
 suficiente para manter novas unidades educacionais. Porém, o fechamento dessas
 escolas atingiu cerca de 83 mil alunos em todo o país.

De acordo com Erivan, mesmo nas regiões onde existem vagas, sobra precariedade. Das 70.816 instituições na área rural registradas em 2013 (uma década antes eram
 103.328), muitas delas continuam sem infraestrutura adequada, biblioteca,
internet ou laboratório de ciências. Outro ponto de alerta é a falta de adequação
 do material didático.

Sem falar da adoção de conteúdos, práticas e atividades distantes do universo
 cotidiano e simbólico dos alunos camponeses, quilombolas ou ribeirinhos, bem
como aponta Erivan.

Falta de fiscalização

Lançada em 2014, a Lei 12.960 tinha como objetivo mudar as Diretrizes e Bases
da Educação (LDB), e um dos pontos previstos era justamente aumentar o grau
de exigência para que uma escola fosse fechada, mas na prática não foi o que
aconteceu.

Para o Sem Terra, o grande problema é a falta de fiscalização. “O MEC institui
as portarias, as leis são sancionadas, mas, na prática, quem tem o poder de
 fechar as escolas é o município. Se o município alega falta de alunos e de verbas,
as escolas acabam sendo fechadas, e políticas que poderiam impedir esse fato
não são colocadas em prática”.

"Não faz sentindo investir na formação de professores se não tem escolas, por
exemplo. Por isso, bato na tecla de que a questão central é a articulação política
 do governo com os municípios - que são os responsáveis diretos pelos fechamentos -, e também um pacote que contemple as demandas prioritários", diz Santos.

“Dentro desse contexto, eu vejo um cenário negativo, que só poderá ser revertido
com muita luta, de quem acredita que a educação é a única maneira efetiva de
construção social”, destaca Erivan.

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